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A ativista verde que pode se tornar a próxima presidente do Brasil

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REVISTA TIME

DOM PHILLIPS

Tão logo foi dada a notícia da queda do pequeno avião que matou o candidato a presidente Eduardo Campos, as atenções no Brasil se voltaram para Marina Silva.

Companheira de chapa do político falecido, ex-ministra do Meio Ambiente e terceira colocada no primeiro turno das eleições presidenciais de 2010, Marina era a escolha óbvia para substituí-lo como candidata do Partido Socialista Brasileiro, PSB.

E, no entanto, Silva, cuja nomeação deverá ser confirmada pelo partido em 20 de agosto, parecia quase relutante em tomar o lugar de Campos. Pessoas que a conhecem, uma cristã evangélica profundamente religiosa, dizem que ela é mais motivada por um sentido de responsabilidade do que por uma ambição cega.

“Ela é muito simples e uma pessoa verdadeira, muito correta. Ela diz o que pensa. E embora ela seja um ser político, é muito verdadeira”, disse Marília de Camargo Cesar, autora da biografia de Marina Silva, em 2010.

Pesquisas dizem que Silva é agora a candidata mais provável para pegar os indecisos de antes, os “votos de protesto” de milhões de brasileiros que foram às ruas em manifestações maciças, em junho do ano passado.

Na segunda-feira (18), a primeira pesquisa desde a morte de Campos deu a Silva 21% das intenções de voto, tecnicamente no mesmo nível (dentro da margem de erro) com Aécio Neves, do partido brasileiro de centro-direita, o social-democrata PSDB, que teve 20%. Neves tinha sido até então a principal ameaça à presidente Dilma Rousseff, que concorre à reeleição e teve 36% na pesquisa. O PT, Partido dos Trabalhadores, de Dilma Rousseff, tem governado o Brasil desde 2003.

Na simulação de segundo turno, Silva teve 47% das intenções de voto e a presidente 43% — tecnicamente, cabeça a cabeça. Até segunda-feira (18), era esperado que Dilma Roussef iria vencer facilmente a reeleição em 5 de outubro. E agora, o mundo está se esforçando para descobrir mais sobre a ativista ambiental que poderá ser a próxima presidente do Brasil.

Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima nasceu em 8 de fevereiro de 1958 numa pequena comunidade da floresta amazônica chamada Breu Velho, no remoto Estado do Acre, na Amazônia. Seus pais tiveram 11 filhos, dos quais três morreram. Ela cresceu entre os seringueiros analfabetos e extremamente pobres, sonhando em se tornar uma freira, e só aprendeu a ler quando era adolescente.

Marina – como é conhecida no Brasil – perdeu a mãe aos 15 anos e sofreu constantes problemas de saúde – sobreviveu a cinco malarias, hepatite e uma intoxicação por metais pesados​​, que provavelmente foi causado por um tratamento para a leishmaniose, uma doença transmitida por pequenos mosquitos tropicais. “Ela ficou perto da morte tantas vezes”, disse Cesar.

Sua origem humilde lhe dá credenciais impecáveis ​​para os milhões de brasileiros de baixa renda que votaram no antecessor e mentor de Dilma Rousseff, e seu colega petista, o carismático Luiz Inácio da Silva, o Lula. Muitos desses milhões alçaram uma nova classe média baixa durante 12 anos de governo PT.

O nome de Silva foi entoado pelos 130 mil enlutados que acompanharam o funeral e enterro de Eduardo Campos no domingo (17), em Recife, capital de Pernambuco, Estado que ele foi governador por oito anos. Dilma, Lula e Neves compareceram.

Uma Marina Silva claramente emocional, que quase se juntou a Campos naquela malfadada viagem de avião, foi o que se viu no funeral, e passou muito tempo de mãos dadas com a viúva de Campos, Renata. Substituir Campos na chapa do PSB não foi uma decisão fácil para ela, disse João Paulo Capobianco, biólogo e ex-vice-ministro de Silva no Ministério do Meio Ambiente do Brasil, que esteve com Silva, em Recife.

“Ela sofreu muito com esse processo”, ele contou. “Ela está consciente de sua responsabilidade. E, como era o desejo de todos, inclusive de Eduardo e da sua família, ela acabou aceitando.”

A carreira política de Silva começou no ativismo ambiental. Formada em História e adepta da “Teologia da Libertação”, movimento de esquerda dentro da Igreja Católica, Silva tornou-se ativista no sindicato dos seringueiros ao lado de Chico Mendes, um sindicalista icônico e ambientalista que foi assassinado em 1988. Ambos participaram de ações diretas contra o desmatamento. Ela então se juntou ao PT nascente, tornou-se deputada estadual em 1990 e a mais jovem senadora do Brasil em 1994, com apenas 36 anos.

Como ministra do Meio Ambiente de Lula, de 2003 a 2008, ela encabeçou o grupo de trabalho interministerial que criou o Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, que levou a uma diminuição de 57% no desmatamento da Amazônia em apenas três anos e lhe valeu o Prêmio Sophie de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, em 2009, na Noruega. Silva tentou criar seu próprio partido, a Rede Sustentabilidade, para competir nesta eleição, mas como não conseguiu, aceitou um papel de vice de Campos.

“Ela é muito objetiva e muito transparente com suas ideias. E tem uma enorme capacidade de atrair colaboradores”, disse Capobianco, que agora preside o Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), um grupo de experts que pensam, estudam e discutem o tema da democracia e sustentabilidade.

Embora Neves, o candidato de centro-direita, fosse a primeira escolha da comunidade empresarial brasileira, cada vez mais preocupada com o baixo crescimento do país e a alta inflação, Campos havia vencido com proposta de metas de inflação de longo prazo e um Banco Central independente. Ele também fez amigos no poderoso lobby do agronegócio do Brasil, um motor fundamental na economia em tropeço do país. “O que temos registrado é realmente muito bom sob a perspectiva de mercado”, disse Volpon, chefe de pesquisa de mercados emergentes das Américas do Banco Nomura, em Nova York.

Mas os “ruralistas” desconfiam de Silva e sua agenda de desenvolvimento sustentável. “Marina Silva nunca foi capaz de ser clara sobre o seu desenvolvimento sustentável em relação à produção agrícola. Nós não entendemos como ela pretende fazer isso”, disse a senadora Kátia Abreu, prevista para ser reeleita, em outubro, presidente da poderosa Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária. “Uma coisa é ser um ativista, outra é ser presidente do país com uma agenda mais realista.”

Essa desconfiança pode ser diminuída com a escolha de Beto Albuquerque, deputado federal, com ligação com o agronegócio do Brasil, para ser vice candidato de Silva. Ter um nome na chapa mais favorável às empresas do agronegócio, irá liberá-la para funcionar como uma candidata mais populista, a candidata da “terceira via”.

E é essa aparência de ser algo novo e diferente, que faz com que Silva seja uma ameaça real para Rousseff nas eleições de outubro. Muitos no Brasil estão à procura de um líder que seja mais do que os políticos cínicos de carreira que o país está cansado de ver, de acordo com o diretor de cinema brasileiro Fernando Meirelles, que dirigiu “Cidade de Deus” e “O Jardineiro Fiel”.

“A grande diferença entre Marina e a maioria dos políticos é que ela coloca suas ideias e seu programa para o país na frente de sua carreira ou de interesses políticos”, disse ele.

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