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Marina acena ao mercado e promete autonomia para BC

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Maria Alice Setubal, a Neca, coordenadora do programa de governo de Marina Silva, afirma que a candidata a presidente pelo PSB reafirmará os compromissos feitos anteriormente por Eduardo Campos a respeito de conceder autonomia formal, por lei, ao Banco Central.

Em entrevista à Folha e ao UOL, Neca disse que, ao longo da campanha, mais economistas “estarão se aproximando” e terão mais o perfil de “operadores” do mercado, para compensar a característica mais acadêmica da maioria dos atuais conselheiros.

Essa é uma tentativa de Marina se qualificar mais como uma candidata confiável aos olhos do establishment financeiro e empresarial. O programa de governo da campanha presidencial do PSB deve ser lançado no próximo dia 29. A candidata também estuda fazer um discurso ou um documento mais sucinto a respeito de seus compromissos na área econômica.

Neca disse que a meta de inflação num eventual governo Marina permanecerá em 4,5%, mas será perseguida uma política que permita chegar a 3% a partir de 2019.

Neca tem 63 anos e é uma das acionistas do Banco Itaú. Tornou-se amiga de Marina desde a campanha de 2010. Com que frequência conversam? “Quase todo dia.”

A partir da consolidação de Marina como candidata a presidente, revela Neca, cresceram as ofertas de doações. Quando fala da presidente Dilma, avalia que a petista “tem uma incapacidade de ouvir. Desagrega”.

Leia trechos da entrevista:

Folha/UOL – O programa de governo do PSB tratará da legalização do aborto e descriminalização da maconha?
Neca Setubal – O programa não entra em nenhum desses dois temas. Política de drogas estará dentro da área de saúde, em termos de prevenção, de recuperação. Não entramos na questão da descriminalização da maconha, nem a favor nem contra. Em relação ao aborto, vamos tratar em termos de direitos humanos. Ninguém é a favor do aborto, mas a favor de dar suporte às mulheres.

Legalização do aborto não é mencionada?
Não é mencionada.

Qual é sua posição pessoal?
Em relação ao aborto, sou a favor. Acho que é um direito das mulheres. Acho que deveria ser liberado. Em relação às drogas, não tenho uma posição. Acho muito complexo.

Eduardo Campos falava numa meta de inflação de 4,5% nos próximos quatro anos para assumir 3% a partir de 2019. Isso vai estar no programa?
Vai. Dessa forma, exatamente. Isso está explícito.

Marina concorda com todos esses pontos e vai assumi-los?
Vai assumi-los. Ela tinha se posicionado em alguns pontos de uma forma diferente do Eduardo. Por exemplo, o caso do Banco Central. Ela não achava que precisaria de uma lei para dar mais autonomia. Mas acho que são os consensos. Existiam diferenças e o programa reflete o que é de consenso. Então ela, enfim, aceitou isso.

No caso do Banco Central, como Campos propunha, com mandatos para o presidente e os diretores?
Será assumido pela Marina. A declaração dela é que vai assumir todos os compromissos do Eduardo.

No caso do BC, uma lei seria proposta?
Muitas vezes, Marina falava: “Bom, isso não era a minha posição, mas foi a posição do Eduardo e a gente concordou com isso”. Então, ela vai assumir essas posições.

Há no programa alguma explicação objetiva sobre como fazer para que a inflação recue para 4,5% ao ano?
Nesse detalhe, não. Mas o programa foca pontos muito claros. Destaca metas da inflação, o tripé [macroeconômico]. Destaca fortemente a reforma tributária, a responsabilidade fiscal muito grande da qual o Eduardo falava. Marina manterá isso.

Há em geral dúvida sobre a falta de experiência administrativa de Marina. Como ela responderá a essa crítica?
Hoje, temos uma presidente cujo perfil é de gestão, pragmático, racional. Talvez o oposto da Marina. E o resultado que nós temos é bastante insatisfatório. Toda essa fala da Dilma gestora se desfez ao longo de quatro anos. O mercado visualizando as pessoas que estão ao lado dela vai ter muito mais segurança. Ela já tem vários economistas. Terá outras, mais operadoras.

Onde errou o governo Dilma?
O principal problema do governo Dilma é a questão política. Ela tem uma incapacidade de ouvir. Tem um discurso absolutamente racional, de uma gerente, gestora. É bom ser gestora, mas tem que ter liderança. Acho que ela não tem essa capacidade política. Ela desagrega.
O século 21 é o século do novo. Acho que a Dilma reproduz uma liderança masculina. A Dilma é aquela pessoa dura, que bate na mesa, que briga, que fala que “eu vou fazer, eu vou acontecer, eu sei”. Isso é, no estereótipo, do coronelismo brasileiro, do político tradicional que vai resolver tudo sozinho.

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