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Reviravolta Desafiadora na Corrida Presidencial

Publicado em 15/09/2014
- Simon Romero com colaboração de Mariana Simões - THE NEW YORK TIMES

THE NEW YORK TIMES

Por Simon Romero com colaboração de Mariana Simões

 

RIO DE JANEIRO – Quando Dilma Rousseff e Marina Silva eram ministras, entraram em confronto em tudo, desde a construção de usinas nucleares a licenciamento de grandes usinas hidroelétricas na Amazônia.

Dilma saiu por cima, emergindo como a herdeira política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, finalmente, sucedendo-o como presidente. Mas agora ela encontra-se numa corrida aquecida com Marina Silva, um ícone do meio ambiente que está despontando na liderança das pesquisas das eleições de 05 de outubro como uma candidata insurgente repudiando a estrutura de poder que ela ajudou a montar.

Na turbulenta corrida presidencial, Marina Silva é um símbolo do sentimento anti-establishment que chacoalhou o Brasil, incluindo a ansiedade com a economia lenta e a exaustão com a corrupção política. Sua crescente popularidade também reflete mudanças na sociedade como a influência crescente dos eleitores cristãos evangélicos e uma inquietação crescente com as políticas que elevaram a renda dos brasileiros fazendo pouco para melhorar a qualidade de vida nas cidades brasileiras.

“Marina é diferente de outros políticos” nesta eleição “na qual veio quase do nada”, disse Sonia Regina Gonçalo, 34, uma zeladora, referindo-se a Marina Silva, que nasceu na pobreza extrema no meio da Amazônia. “Ela é a candidata ideal para esta época no Brasil.”

O impulso veio depois que seu companheiro de chapa, Eduardo Campos, morreu em um acidente de avião em agosto, mas Marina Silva, de 56 anos, tem poucos paralelos na política brasileira, permitindo-lhe entrar em ressonância com os eleitores em todo o país.

Se eleita, seria a primeira presidente do Brasil negra, uma conquista para um país onde a maioria das pessoas agora se identifica como negro ou pardo, mas onde o poder político ainda está concentrado nas mãos de brancos.

Uma dos 11 filhos de seringueiros que viviam como meeiros no Acre, um estado na parte ocidental do Brasil, Marina Silva foi analfabeta até 16 anos de idade. Quando criança, sofreu intoxicação por mercúrio, teve malária, hepatite e leishmaniose, doença causada por picada de mosquistos, criando problemas de saúde que ainda hoje ela lida.

Quando adolescente, entrou para um convento católico para se tornar freira, mas deixou para ir trabalhar como empregada doméstica na casa de funcionários públicos em Rio Branco, capital do Acre. Depois de completar um programa de equivalência do ensino médio, ela foi para uma universidade pública no Acre e participou de uma trupe de teatro radical com ligação a grupos trotskistas.

Como estudante, Marina Silva ingressou no Partido Comunista (Partido Revolucionário Comunista), mas uma revelação maior veio quando ela conheceu o líder ambientalista Chico Mendes, aderindo ao seu movimento de seringueiros e teve estreita colaboração com ele até que ele foi assassinado em 1988. No mesmo ano, ela ganhou sua primeira eleição, a Câmara Municipal de Rio Branco, como candidata do Partido dos Trabalhadores (PT), de esquerda, o partido de Dilma e seu antecessor. Mas Marina Silva rompeu com o Partido dos Trabalhadores, em 2009, para montar sua primeira candidatura à presidência, pelo Partido Verde.

Agora, as duas candidatas rivais representam campos opostos no establishment político de esquerda no país. Dilma, ex-membro de um grupo de guerrilha urbana, tem uma poderosa história de sofrimento e resistência, tendo sido presa e torturada pela ditadura militar no Brasil.

Como política, Dilma é muitas vezes referida no Brasil como “desenvolvimentista”, acenando para as políticas que buscam agressivamente aproveitar os recursos naturais do Brasil, do minério de ferro ao petróleo, e expandir a economia sob o domínio de grandes empresas estatais.

Marina Silva, que foi ministra do Meio Ambiente, quando Dilma era chefe da Casa Civil no governo Lula, apoia uma matriz de fontes de energia renováveis, como solar, eólica e biomassa, enquanto prioriza a proteção da Floresta Amazônica.

O fato de que a corrida presidencial no Brasil vem aproximando duas mulheres do governo Lula que se opuseram ao regime militar, reflete a consolidação da democracia no Brasil desde os anos 1980. Mas cada uma teve que fazer concessões significativas, mostrando como a democracia tende a abrandar líderes com origens radicais.

No caso de Dilma, ela tem poucas opções para governar em coalizão com o Partido Democrata (DEM), partido de centro-direita, preocupado com escândalos mas que exerce um poder considerável na vasta burocracia pública. Caso contrário, o Partido dos Trabalhadores teria pouca chance de aprovar as leis importantes no rebelde Congresso brasileiro.

Marina Silva se distanciou de como o Partido dos Trabalhadores gerencia a economia, que entrou em recessão este ano, atraindo conselheiros com políticas mais favoráveis ​​ao mercado, como relaxar os controles sobre os preços da energia. Ela escolheu um político com laços estreitos a grupos do agronegócio como seu companheiro de chapa.

Marina Silva também difere consideravelmente de grande parte do establishment esquerdista por sua fé religiosa. Ela surpreendeu a própria família em 1997, quando se converteu ao cristianismo evangélico, sofrendo o que ela chamou de “experiência mística” ao lidar com graves problemas de saúde relacionados a sua intoxicação por mercúrio.

“A dura militante comunista tornou-se uma crente religiosa”, escreveu a jornalista Marília de Camargo César na biografia autorizada de Marina Silva. “Amigos de Marina, até mesmo seu próprio marido, viraram o nariz quando souberam da notícia.”

Na eleição deste ano, Marina Silva, alcançou um número crescente de evangélicos no Brasil, que representam cerca de 22 por cento da população. Mas também foi alvo de críticas de adversários que dizem que ela iria alterar os fundamentos seculares do governo.

Alguns aproveitaram os relatos de que Marina Silva pratica “roleta bíblica”, ou abre a Bíblia em uma passagem aleatória para ter inspiração em decisões difíceis.

Outros têm atacado Marina Silva de criacionista, revelando as tensões da influência evangélica e sendo repreendidos prontamente por Marina Silva.

“Eu não sou um criacionista,” Marina Silva contou em um debate de jornalistas brasileiros. “Mas eu não preciso justificar cientificamente a minha fé. Eu acredito que Deus criou todas as coisas, incluindo a grande contribuição dada por Darwin.”

Colaboradores próximos correram em sua defesa.

“É absurdo pensar que Marina pode colocar o Brasil em um caminho fundamentalista”, disse Valnice Milhomens, uma líder evangélica. “Marina nem sequer fez parte da bancada evangélica”, acrescentou, referindo-se aos políticos evangélicos no Congresso, que muitas vezes têm posições direitistas em questões sociais como o aborto e o casamento homossexual.

Esta relutância em se aproximar dos evangélicos expôs fissuras na campanha de Marina Silva. Depois de enfrentar críticas por parte de alguns líderes evangélicos sobre seu apoio ao casamento do mesmo sexo, ela voltou atrás neste mês, explicando que apoiava as uniões civis. (O Conselho Nacional de Justiça do Brasil já abriu o caminho para que casais gays se casem.)

Marina Silva não tem enfatizado sua etnia ou origem humilde durante a campanha. Em vez disso, optou por uma mensagem difusa da “nova política”, necessária para frustrar os planos do Partido dos Trabalhadores (PT) e do Partido Social Democracia Brasileira (PSDB), um partido centrista, que têm dominado a política nacional há duas décadas.

A estratégia reflete os grandes protestos que sacudiram as cidades brasileiras em 2013 e revelaram um amplo desprezo por um sistema político que tirou milhões da pobreza neste século, mas também negligenciou problemas apodrecidos, como a corrupção, além de escolas e hospitais inadequados.

“Algumas coisas eles fizeram certo, mas tem um monte de outras coisas erradas”, disse William Souza, 42, um técnico de ar condicionado, referindo-se ao Partido dos Trabalhadores, no poder desde 2003. “O tempo deles acabou.”

Agora concorrendo por um partido muito menor, o Partido Socialista Brasileiro (PSB), Marina Silva é conhecida por ter recusado muitas regalias desfrutadas pelos políticos brasileiros, quando era senadora pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Ela cultiva um ascetismo que contrasta com o estilo de vida opulento de muitos líderes políticos proeminentes no Brasil.

Sua moderação vai além da política. Marina Silva, mãe de quatro filhos, se abstém de carne vermelha, frutos do mar, produtos derivados do leite e álcool. Ela é conhecida por abominar bebidas geladas e ar-condicionado, literalmente, fazendo algumas pessoas suarem quando se encontram com ela em reuniões.

Grandes desafios para a candidatura de Marina Silva persistem. A campanha de Dilma tem um baú com 55 milhões dólares americanos, cerca de cinco vezes mais do que Marina Silva tem. Os ataques na publicidade e programas de TV já semearam algumas dúvidas sobre Marina Silva, travando sua ascensão nas pesquisas.

Marina Silva revelou pouco sobre como ela irá lidar com o destacado perfil diplomático do Brasil, em grande parte, evitando problemas como os estreitos laços que o governo de Dilma Rousseff tem mantido com Cuba e Venezuela.

Quando Marina Silva puxa a cortina um pouco, ela ocasionalmente revela facetas que milhões de brasileiros acham atraentes. Em um perfil pela revista brasileira Piauí, ela refletiu sobre sua labuta como uma empregada.

“Criados sempre lembram a vida de seus donos”, disse Marina Silva. “O oposto é mais raro de ocorrer.”

Link para notícia: www.nytimes.com/2014/09/16/world/americas/challenger-marina-silva-upends-brazilian-race-for-presidency-against-dilma-rousseff.html?smid=tw-share

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